sábado, março 07, 2009
Flache da Semana - 9





Hoje, falo da Semana da Leitura, na Escola EB1/JI do Fujacal, que decorreu até ontem.
Foi uma semana muito animada. Tivemos uma feirinha de livros muito frequentada e com vendas que confirmam o muito interesse que têm os nossos jovens alunos e as suas famílias pela leitura.
Muitos pais, avós e outros encarregados de educação, deslocaram-se às salas de aula para lerem ou contarem as suas histórias preferidas, e vários escritores, mais ou menos consagrados, foram ao pavilhão principal dar as suas conferências, falar dos seus livros e oferecer autógrafos.
Houve também espaço para a leitura em línguas estrangeiras, dado o cosmopolitismo da nossa escola, frequentada por meninos de várias nacionalidades.
A mim, que sou o porteiro desta nobríssima escola, foi-me dada uma possibilidade de intervir no encerramento desta Semana de Leitura. Resolvi apresentar um monólogo a que dei o título de "Hospital de Livros", no qual pude simular a encadernação e o restauro de livros que em tempos aprendi nas Oficinas de S. José, em Braga; propor uma canção que preparei para o acto; e encenar uma história igualmente da minha autoria para o momento.
Enfim, foi uma semana de verdadeira escola democrática - e cultural! -, com o contributo de todos.
Registo a história que ocupou parte daquele meu monólogo:
Registo a história que ocupou parte daquele meu monólogo:
"O Livro Grande de João-Pimpolho
Aquilo não lembra nem ao diabo! – costumava dizer o avô do João-Pimpolho, de olhos muito arregalados, a boca um pouco aberta de espanto…
Bem!, o querido velhinho, parecia estar a regressar de um virtual planeta de livros muito antigos, deliberadamente para se assarapantar com os descobrimentos, as engenhoquices e a habilidade de tão fadado neto.
E aquele avô - babadinho - estava sempre a repetir:
Bem!, o querido velhinho, parecia estar a regressar de um virtual planeta de livros muito antigos, deliberadamente para se assarapantar com os descobrimentos, as engenhoquices e a habilidade de tão fadado neto.
E aquele avô - babadinho - estava sempre a repetir:
- "O rapaz é jeitoso. Vai dar homem".
Às vezes até se via uma lágrima de cristal a descer pelo leito fundo e curvo de uma ruga que havia no rosto do avozinho. Era a sua felicidade, que já não cabia toda lá dentro. E nestes momentos até o idoso soluçava um pouco nas palavras para lembrar a todos o que já não era necessário:
- “O rapaz é jeitoso”.
- “Faz coisas que não lembram nem ao diabo”.
- “Vai dar homem. Ai isso vai”.
Para a bola, o João-Pimpolho já nascera ensinado. Tinha treinado muito na barriga da mãe, e esta, que ainda não tinha ido ao exame de ecografia saber do sexo da criança - e porque é costume pensar-se assim! -, dizia às suas amigas:
- “Vai ser rapaz! Está sempre aos chutos”.
- “O rapaz é jeitoso”.
- “Faz coisas que não lembram nem ao diabo”.
- “Vai dar homem. Ai isso vai”.
Para a bola, o João-Pimpolho já nascera ensinado. Tinha treinado muito na barriga da mãe, e esta, que ainda não tinha ido ao exame de ecografia saber do sexo da criança - e porque é costume pensar-se assim! -, dizia às suas amigas:
- “Vai ser rapaz! Está sempre aos chutos”.
As amigas riam-se; tocavam naquele ventre gorducho, e reconheciam:
“Na verdade, quem está cá está muito animado”…
Pimpolho nascera à sexta-feira ao fim da tarde, parecia já interessado em ir de fim-de-semana. A mãe, muito emotiva, disse logo:
- “Ao escolher este dia para nascer é porque gosta de viajar. Quer conhecer o mundo”.
O avô, disse, da sua sabedoria antiga:
- “Abençoado seja Nosso Senhor, que o rapaz é perfeito. Tem umas orelhinhas que parecem mesmo as do Menino Jesus”.
A avó beijocava-o, enternecida, não dizia nada porque assim dizia tudo, mas, pela observação minuciosa do corpito, devia estar a pensar:
- “Ai estes olhinhos são mesmo do meu lado. Todos nós temos os olhos castanhos”.
Também vieram os outros dois avós, também achavam que o petiz era todo do seu lado:
- “Esta barbelinha é da avó, que ninguém lha tira” – disse o avô materno.
O pai parecia um executivo, todo em movimentos impulsivos tratando das papeladas, sobretudo inquietava-o a necessária urgência de registar o seu grande achado, que não era senão, nem mais nem menos, o sonantíssimo nome de João-Pimpolho.
Enfim, estava o crianço em grave perigo de vir a ser estragado com mimo.
O que valeu mesmo a João-Pimpolho foi, desde logo, a sua altiva independência. O rapaz começou a crescer e a revelar-se com jeito para tudo, mas o que mais nele impressionava era a sua enorme curiosidade. Estava sempre a perguntar às coisas: porque é que tu és assim?
Perguntava, por exemplo, a uma bola:
"Ó bola, se tu rebolas, tem de haver uma razão,
Porque há bolas que voam, como as bolas de sabão.
E se o mundo é uma bola como o globo da escola,
Então o mundo rebola melhor que uma cebola.
Ou esta gente está tola, e isso não me consola,
Ou uso a minha tola, que também é uma bola".
E de tanto perguntar estas coisas às coisas, e de tanto pensar no assunto, o João-Pimpolho, uma noite, teve um sonho muito auspicioso:
“Bem, o mundo já é mundo há muito tempo e já muita muita gente, desde há muito muito tempo, muita gente deve andar a perguntar coisas às coisas. Essas perguntas e respostas” - sonhou João-Pimpolho -,“só podem estar num livro muito grande e muito antigo onde decerto toda a gente que já nasceu e viveu em todos os tempos e lugares, deve ter escrito um bocadinho”.
Esse sonho andou sempre a passear na cabeça de João-Pimpolho, mesmo depois de ele já estar acordado, e assim andou sempre a passear na sua cabeça até ao dia em que entrou para a primeira classe da Escola EB1/JI do Fujacal, em Braga.
No primeiro dia de escola, a senhora professora, para desanuviar, perguntou logo, à vez, a cada menino e menina, o que queria ser quando fosse grande.
E cada menino disse o que queria ser, tudo profissões importantes: O Miguel queria ser engenheiro de submarinos, o António preferia os ares e disse que queria ser astronauta, a Matilde aspirava a ser rainha, a Ana tinha o sonho das artes plásticas.
O João-Pimpolho tinha-se deixado ficar para o fim e já parecia à senhora professora que dali ia sair um miúdo muito tímido.
Porém, João-Pimpolho, que estivera a escolher as palavras para o seu discurso, disse:
- “Senhora Professora, eu queria ser escritor para escrever um bocadinho no livro grande do meu sonho”.
Os outros meninos ficaram muito assarapantados com a futura profissão de Pimpolho, e a senhora professora, essa, ficou curiosa.
Então, João-Pimpolho explicou que se tratava de um livro de mais de mil folhas, um livro muito grande, onde escrevera toda a gente que andara por todos os sítios, em todos os tempos, à face da terra.
Eu acho que todos os meninos daquela turma compreenderam o sonho que vivera muito acordado na cabecinha de João-Pimpolho".
Braga, 28 de Fevereiro de 2009
Pimpolho nascera à sexta-feira ao fim da tarde, parecia já interessado em ir de fim-de-semana. A mãe, muito emotiva, disse logo:
- “Ao escolher este dia para nascer é porque gosta de viajar. Quer conhecer o mundo”.
O avô, disse, da sua sabedoria antiga:
- “Abençoado seja Nosso Senhor, que o rapaz é perfeito. Tem umas orelhinhas que parecem mesmo as do Menino Jesus”.
A avó beijocava-o, enternecida, não dizia nada porque assim dizia tudo, mas, pela observação minuciosa do corpito, devia estar a pensar:
- “Ai estes olhinhos são mesmo do meu lado. Todos nós temos os olhos castanhos”.
Também vieram os outros dois avós, também achavam que o petiz era todo do seu lado:
- “Esta barbelinha é da avó, que ninguém lha tira” – disse o avô materno.
O pai parecia um executivo, todo em movimentos impulsivos tratando das papeladas, sobretudo inquietava-o a necessária urgência de registar o seu grande achado, que não era senão, nem mais nem menos, o sonantíssimo nome de João-Pimpolho.
Enfim, estava o crianço em grave perigo de vir a ser estragado com mimo.
O que valeu mesmo a João-Pimpolho foi, desde logo, a sua altiva independência. O rapaz começou a crescer e a revelar-se com jeito para tudo, mas o que mais nele impressionava era a sua enorme curiosidade. Estava sempre a perguntar às coisas: porque é que tu és assim?
Perguntava, por exemplo, a uma bola:
"Ó bola, se tu rebolas, tem de haver uma razão,
Porque há bolas que voam, como as bolas de sabão.
E se o mundo é uma bola como o globo da escola,
Então o mundo rebola melhor que uma cebola.
Ou esta gente está tola, e isso não me consola,
Ou uso a minha tola, que também é uma bola".
E de tanto perguntar estas coisas às coisas, e de tanto pensar no assunto, o João-Pimpolho, uma noite, teve um sonho muito auspicioso:
“Bem, o mundo já é mundo há muito tempo e já muita muita gente, desde há muito muito tempo, muita gente deve andar a perguntar coisas às coisas. Essas perguntas e respostas” - sonhou João-Pimpolho -,“só podem estar num livro muito grande e muito antigo onde decerto toda a gente que já nasceu e viveu em todos os tempos e lugares, deve ter escrito um bocadinho”.
Esse sonho andou sempre a passear na cabeça de João-Pimpolho, mesmo depois de ele já estar acordado, e assim andou sempre a passear na sua cabeça até ao dia em que entrou para a primeira classe da Escola EB1/JI do Fujacal, em Braga.
No primeiro dia de escola, a senhora professora, para desanuviar, perguntou logo, à vez, a cada menino e menina, o que queria ser quando fosse grande.
E cada menino disse o que queria ser, tudo profissões importantes: O Miguel queria ser engenheiro de submarinos, o António preferia os ares e disse que queria ser astronauta, a Matilde aspirava a ser rainha, a Ana tinha o sonho das artes plásticas.
O João-Pimpolho tinha-se deixado ficar para o fim e já parecia à senhora professora que dali ia sair um miúdo muito tímido.
Porém, João-Pimpolho, que estivera a escolher as palavras para o seu discurso, disse:
- “Senhora Professora, eu queria ser escritor para escrever um bocadinho no livro grande do meu sonho”.
Os outros meninos ficaram muito assarapantados com a futura profissão de Pimpolho, e a senhora professora, essa, ficou curiosa.
Então, João-Pimpolho explicou que se tratava de um livro de mais de mil folhas, um livro muito grande, onde escrevera toda a gente que andara por todos os sítios, em todos os tempos, à face da terra.
Eu acho que todos os meninos daquela turma compreenderam o sonho que vivera muito acordado na cabecinha de João-Pimpolho".
Braga, 28 de Fevereiro de 2009