Domingo, Novembro 01, 2009

 

Com a devida Vénia - 16


"Dentro da classe médica, há quem reaja de modo incomodado à perspectiva de se legislar o chamado "testamento vital". Porquê? Fundamentalmente, porque estes membros da classe médica se acham os representantes da defesa dos melhores interesses dos cidadãos doentes (...) mesmo que não os conheçam de lado nenhum e, mesmo assim, os tratem por tu.
(...) Se a classe médica soubesse sempre, na mera audição de um conserto, identificar o som de um instrumento de cordas com o de um violino e, mais ainda, conseguisse reconhecer nesse violino o som de um Stradivarius, poderia contemplar a hipótese de depositar nela uma confiança última. Mas como tenho imensas razões para desconfiar do ouvido musical da classe, (...) deixem que seja eu a ter a última palavra, mesmo que não gostem da minha música e eu própria até já não a possa tocar, embora tenha deixado as pautas necessárias à sua execução."

In "O testamento vital e a defesa dos interesses dos cidadãos", texto da professora universitária bracarense Laura Ferreira dos Santos, dado a lume no jornal Público de hoje,


Domingo, Outubro 25, 2009

 

Saramago e... Ser amargo.


Não acho má a presente polémica ao redor do livro Caim, de Saramago.
Eu sou crente, apurei o meu humanismo a partir da fé e da militância enquanto católico, está visto que não sou tão pessimista quanto o escritor Nobel, acerca da Bíblia e da acção da Igreja.
Mas acho que Deus também pode falar-me até através das palavras de José Saramago, porque o Espírito Santo sopra onde quer e como quer, como costumamos dizer, em comunidade.
Deste autor, li, todo, O Evangelho Segundo Jesus Cristo e, também, de forma completa, A Viagem do Elefante. Não cheguei ao fim do Memorial nem da Jangada. Nos outros ainda não arranquei. Vou ler Caim? Decerto. Não acho o autor globalmente mau, sendo que o considero pontualmente genial e às vezes uma seca. Vale a pena, assim, tê-lo como um dos nossos homens das letras, bem como as suas picardias no nosso comodismo.
Mas também gosto da Bíblia enquanto biblioteca de boa literatura. Há pouco tive a rara oportunidade de ouvir dizer as cartas de S. Paulo por actores profissionais, entre os quais havia ateus e agnósticos, aqui em Braga, e vou-vos dizer: são obras magistrais, que eu, apesar de as possuir há décadas e as ouvir frequentemente nas missas, ainda não as tinha descoberto completamente.
Assim, hoje, apetece-me aconselhar a leitura completa de duas bibliotecas: A Bíblia Sagrada e a Bíblia Saramaguiana. Coloco esta segunda também com maiúsculas para evitar quaisquer discriminações.
Mas há outros livros que vêm a propósito. Um deles é Valores, de Francesco Alberoni, publicado em Portugal pela Bertrand Editora. A certo passo, diz assim:

"... Nós somos os filhos de quem se demonstrou capaz de sobreviver. Quem se comportou de outra forma não pode falar. Os seus descendentes não chegaram a nascer. Os pobres de espírito, os mansos, os bons, os puros de coração, aqueles que não defendem de unhas e dentes o seu território e a sua prole, combatendo o inimigo, que não disseminam os próprios genes a todo o custo, esses estão em desvantagem na luta pela vida e não deixarão descendentes.
Apenas sobrevivem os filhos de Caim".

Enfim: há muitas outras abordagens da figura de Caim, e também este tratado de sociologia precisou de ir beber à fonte bíblica.
Vêem como a Bíblia é, também, um incomensurável depósito de cultura e tem uma utilidade que chega a transcender a sua própria transcendência?
Obrigado José Saramago e demais polemistas.


Sábado, Outubro 17, 2009

 

Baralhar e Dar de Novo


Pronto! Lá se foram as eleições, e há que dar posse aos governos central e locais, sendo preciso arregaçar as mangas já a partir desta semana. O Partido Socialista foi o que mais venceu, quando todos venceram um pouco. Excepto os pequeninos partidos, dos quais lamento não ter sobressaído o partido da esperança, o MEP. O governo da República vai ser mais dialogado, por acaso e por necessidade. O PSD não será uma oposição à altura, para já, dado que, por ali, todos andam a morder-se como gatos dentro de um saco. As causas fracturantes avançarão desde já. E serão aprovadas. A avaliação dos professores será suspensa e ninguém terá uma alternativa tão válida quão necessária. O diálogo será sempre um pau de dois bicos, umas vezes sim, outras vezes, sopas. O país não pode parar. Mas será mais lento, e por vezes empatado.
Pela nossa terra de Braga, há maioria absoluta para governar a cidade, mas faltam os bons contributos das esquerdas no executivo: nem o Bloco lá entrou, nem a voz qualitativa da CDU pôde regressar. Mesquita Machado, um excelente presidente, está, e muito bem, em fim da viagem, porque o limite de mandatos é um bem imprescindível. É correcto que faça os quatro anos, e que ninguém o substitua pela porta do cavalo, pois a democracia também não é isso. Há oposição com qualidade na Câmara e a partir das freguesias. Firmino Marques, da maior freguesia do Concelho, e também do Distrito, S. Víctor, é um Senhor. Sou eleitor desta freguesia mas não eleitor seu. Mas reconhecer é necessário.


Domingo, Outubro 04, 2009

 

Com a Devida Vénia - 15


"Braga é fantástico. Às vezes, fica-se com a impressão que é Braga que deveria mandar neste país. Veio do Sporting de Braga o treinador que está a salvar o Benfica. Mas, mesmo sem esse treinador, o Sporting de Braga está em primeiro lugar. Acho que o Sporting de Braga é o único clube de que todos os portugueses gostam secretamente. Os benfiquistas acham que eles são do Benfica; os do Sporting apontam para o nome e os portistas, por muito que lhes custe, são nortenhos e não se pode ser nortenho sem gostar de Braga".

Miguel Esteves Cardoso, in revista J do jornal O Jogo, de ontem.


Domingo, Setembro 27, 2009

 

A Cidadania Dos Meus Filhos


São dezassete horas, e enquanto espero o resultado das eleições, espero também o regresso dos meus três filhos que estão a prestar serviço em outras tantas mesas de voto. Estou muito orgulhoso dos meus filhos, em momento em que tantos afirmam que os jovens estão desmotivados. Eu próprio fui secretário numa mesa de voto nas primeiras eleições em democracia, para a Assembleia Constituinte, em 25 de Abril de 1975, tinha então dezoito anos. Dois dos meus filhos têm hoje essa idade - o outro tem 24 -, não são, portanto, menos participativos que eu. De resto, quem se queixa da juventude, lá sabe que contributo deu para que ela fosse o que pensa que ela é. Eu não me queixo. Nem deles nem de mim.


Domingo, Setembro 20, 2009

 

Sem Ética Mas Com Pimenta


A famosa manchete do Público, de 18 de Agosto, sobre as alegadas escutas de S. Bento a Belém, -de dar ainda muito que falar.
Para já, deixemos em repouso os supostos factos, e detenhamo-nos no modo como se elaboram as notícias.
Para este exercício, nada melhor do que lermos o texto que o Provedor do Leitor do jornal Público, Joaquim Vieira, dá hoje à estampa neste jornal.
O provedor denuncia "graves erros jornalísticos praticados [pelo Público] em todo este processo", entre as quais não ouvir uma das partes envolvidas na notícia e "permitir que o guião da investigação fosse ditado pela outra parte".
Joaquim Vieira acha também muito "estranho, inexplicável mesmo" que o Diário de Notícias tenha publicado um e-mail de trabalho de um jornalista do Público para outro jornalista do mesmo jornal. Porém, não se detém sobre este assunto porque, diz, "não é provedor do DN, sim do Público".
Conclusão: fazer um jornal é uma maçada porque nem sempre há notícias picantes para dar.
Quando assim é, lá vem a tentação de fazer um cozinhado com a pimenta da casa, procurando evitar ouvir as partes envolvidas para que se não venha a correr o risco de estragar o menu.
Ainda bem que temos um óptimo provedor, cuja sentença de hoje aconselho a ler.
Obrigado Sr. Joaquim Vieira.


Domingo, Setembro 13, 2009

 

Sócrates versus Manuela



José Sócrates e Manuela Ferreira Leite enfrentaram-se ontem na televisão, no último dos dez debates da pré-campanha eleitoral.
Assim, faço, também, o meu balanço após estes dez retóricos duelos.
A minha primeira percepção é de que parece renascer, de algum modo, o interesse dos portugueses pela política. Verifico-o nos valores das audiências dos debates, reportado, em média, em mais de um milhão de espectadores; e noto-o na subtil e espontânea participação das ruas: as pessoas, e nomeadamente os jovens, falam agora mais de questões políticas, estando mais atentos e motivados.
A minha segunda percepção é de que o sistema partidário está muito fechado entre si, sendo muito difícil a entrada formal de novos valores; e também os chamados pequenos partidos (extra-parlamentares) não têm forma de crescer e de dar o seu contributo, pois lhes estão fechados os meios de comunicação social. Assim, aquele ânimo das ruas, dos cidadãos comuns, não é aproveitado no todo do seu melhor.
O debate de ontem entre Manuela Ferreira Leite e José Sócrates, mostrou a primeira com imensas fragilidades pessoais e políticas - aquilo era gafe sobre gafe -, e o segundo muito sólido e conhecedor dos dossiês da governação. Eu sempre fui um independente da área do socialismo democrático e não tenho quaisquer dúvidas: voto José Sócrates.

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